O cenário de aquisição de frotas no Brasil está passando por uma mudança drástica. Segundo um estudo da Mirow & Co., as vendas de caminhões novos para empresas de locação dispararam 50,3% entre 2019 e 2024. O motivo? O custo proibitivo do crédito e a dificuldade em prever a demanda estão forçando transportadoras a abandonarem a compra direta em favor de modelos de rental e leasing, buscando reduzir riscos financeiros e ganhar fôlego operacional.
Aqui está a questão: comprar um caminhão hoje não é apenas uma decisão de logística, mas uma decisão financeira pesada. Com veículos pesados ultrapassando a marca de R$ 1 milhão, financiar esse valor com as taxas de juros atuais tornou-se quase inviável para muitos. É aí que entra a locação. Elmar Gans, sócio da consultoria Mirow & Co., explica que esse modelo permite que o transportador ajuste sua frota sem imobilizar capital a longo prazo, algo essencial para quem lida com a sazonalidade do agronegócio.
A transição do produto para o serviço
Antigamente, alugar um caminhão era apenas ter o veículo à disposição. Hoje, a coisa mudou. Os contratos modernos evoluíram para pacotes de serviços integrados. Agora, a locação engloba manutenção, seguro e gestão de frota, funcionando como uma prestação de serviço contínua. Para o empresário, isso significa previsibilidade de custos — algo raro em um mercado tão volátil quanto o brasileiro.
Apesar do crescimento, ainda temos um caminho longo para chegar aos níveis internacionais. Atualmente, a locação representa entre 10% e 11% dos emplacamentos de caminhões novos no Brasil. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos, esse número gira entre 20% e 30%, enquanto na Europa chega a impressionantes 50%. O twist é que a própria instabilidade da economia brasileira, que costuma afastar investidores, acaba favorecendo soluções flexíveis que minimizam a exposição ao risco.
Montadoras entram no jogo da locação
Percebendo que o vento estava mudando, as gigantes da fabricação decidiram parar de apenas vender e começaram a alugar. Em agosto de 2022, a Volkswagen Caminhões e Ônibus lançou seu programa de Truck Rental, sendo a pioneira entre as montadoras a oferecer manutenção e seguro integrados no plano.
Logo em seguida, em setembro de 2022, a Volvo lançou a Volvo Locadora, expandindo a oferta para ônibus e equipamentos de construção. A Scania não ficou para trás e anunciou sua entrada no mercado durante a Fenatran 2022São Paulo, começando a entregar linhas EURO 6 e veículos a gás natural (CNG) em fevereiro de 2023.
Para Roberto Cortes, CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus, a pandemia de Covid-19 foi o catalisador. As dificuldades de crédito impostas pela crise empurraram as empresas para a locação. Já Silvio Munhoz, diretor da Scania, destaca que a empresa se baseou na experiência europeia, onde a Scania já opera com mais de 6.000 veículos alugados há três décadas.
Impacto financeiro e a força do agronegócio
Quem já estava no mercado há tempo viu a oportunidade bater à porta. O Grupo Vamos, que opera no setor há 20 anos, viu seus resultados explodirem. Gustavo Couto, CEO da Vamos (VAMO3), empresa do Grupo Simpar, relatou um lucro líquido recorde de R$ 254,3 milhões no quarto trimestre de 2022 — um salto de 115% em relação ao ano anterior.
Curiosamente, o interesse não vem apenas do transporte rodoviário puro. Produtores de sementes e logística de grãos estão adotando o modelo para expandir áreas de plantio sem se endividar. O setor sucroalcoleiro, especialmente no interior de São Paulo, tornou-se um dos pilares de clientes para a Vamos, consolidando a região Sudeste como a mais adepta à locação, superando até o Centro-Oeste em prevalência de contratos.
Perspectiva Global: O espelho dos Estados Unidos
Essa tendência não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, dados do Sandhills Global Market Report de março de 2026 indicam que a demanda por caminhões usados para locação está subindo, enquanto os estoques de veículos pesados e semirreboques diminuem. Plataformas como TruckPaper.com mostram que as frotas de locação estão absorvendo a oferta, mantendo os preços estáveis ou mesmo elevados.
Isso cria um ciclo interessante: menos caminhões disponíveis para compra individual elevam a atratividade do leasing. Como as empresas não conseguem comprar o que precisam (ou não querem pagar o preço inflacionado), elas recorrem a quem já detém a frota.
Perguntas Frequentes
Por que as empresas estão preferindo alugar em vez de comprar caminhões?
O principal motivo são as altas taxas de juros, que tornam o financiamento de veículos acima de R$ 1 milhão muito caro. Além disso, a locação oferece maior flexibilidade para lidar com demandas sazonais (como a safra agrícola) e remove a preocupação com a manutenção e a depreciação do ativo.
Qual a diferença do mercado brasileiro para o europeu e americano?
O Brasil ainda está em estágio inicial, com apenas 10-11% de participação de locação nos novos registros. Nos EUA, esse índice é de 20% a 30%, e na Europa chega a 50%. Isso indica que o Brasil tem um potencial de crescimento massivo à medida que o modelo de leasing amadurece.
Quais montadoras já oferecem serviços de locação no Brasil?
Volkswagen, Volvo e Scania entraram formalmente no mercado de locação em 2022. Elas oferecem pacotes que incluem não apenas o veículo, mas também seguro e manutenção, tentando competir com locadoras tradicionais como o Grupo Vamos.
Como o agronegócio influenciou esse crescimento?
Produtores de grãos e cana-de-açúcar utilizam a locação para expandir suas operações de plantio e colheita sem imobilizar capital. Isso permite que eles aumentem a frota durante os picos de demanda e a reduzam depois, evitando custos fixos ociosos durante o resto do ano.